quinta-feira, 30 de junho de 2011

Vicente Leite - Exposição Individual na Galeria da Fa7

EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL do Artista Plástico VICENTE LEITE na Faculdade 7 de Setembro (25 de maio a 27 de junho 2011), comemorando 8 anos de existência da GALERIA DE ARTE VICENTE LEITE. Trata-se de um espaço para a arte cearense com o compromisso da excelência artística e educacional.  Curadoria de Dante Deniz, usando patrimônio de colecionadores de Fortaleza.
VICENTE ROSAL FERREIRA LEITE, nasceu no Crato, dia 6 de agosto de 1900, filho de Felix Ferreira Leite e Maria Rosal Ferreira Leite. Vicente morreu, prematuramente, no Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1941. A casa onde Vicente nasceu, no sitio batateira, ainda existe e abriga um Museu com seu nome.
No fim da década de 1910 foi agraciado com bolsa de estudos pelo Presidente da Província do Ceará e transferiu-se para o Rio de Janeiro onde ingressou no curso de Pintura Livre na Escola Nacional de Belas Artes (1920-1926). Teve como mestres: Lucilio de Albuquerque, Rodolfo Chambelland e João Batista Costa de quem recebeu direta influencia e é considerado por muitos seu fiel seguidor. IMPRESSIONISTA. Seus companheiros de turma foram Roberto Rodrigues, Lula Cardoso Ayres, Oswaldo Teixeira, Orlando Teruz e Candido Portinari que o retratou em 1923.
VICENTE LEITE foi um artista de destaque no mundo da pintura. Recebeu todas as premiações que um pintor poderia aspirar na sua época. No Salão Nacional de Belas Artes: Menção Honrosa 1924, Medalha de Bronze 1926, Medalha de Prata 1929, Prêmio de Viagem nos Pais 1935, Prêmio de Viagem ao Exterior 1940. No Salão Paulista de Belas Artes: Medalha de Bronze 1938, Medalha de Prata 1939. No Salão de Artes Plásticas do Rio Grande do Sul, Medalha de Prata 1939. Participou do Salão da Primavera no Liceu de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro 1924, Salão de Outono no Rio de Janeiro 1926 e do Salão Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro 1935. Realizou exposições individuais no rio de Janeiro e São Paulo em 1936. Participou do Salão Rosário, na Argentina 1929, e do Salão de Arte Contemporânea do Hemisfério Ocidental, em Nova Iorque 1941. No CEARÁ encontra-se no mesmo patamar de Raimundo Cela, Antonio Bandeira e Aldemir Martins. Teve retrospectivas individuais na Galeria Ignez Fiúza, Galeria Multiarte.  No Centro Cultural Oboé e na Prefeitura do Município do Crato 2000, comemorativas dos 100 anos de nascimento do Artista.
VICENTE LEITE, figura nos acervos do Museu Nacional de Belas Artes, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Pinacoteca do Estado do Ceará, e no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará. É citado em “A Pintura no Brasil”. de Jose Maria reis Jr.; em “Artistas Pintores no Brasil”, de Teodoro Braga; no “Dicionário das Artes Plásticas no Brasil”, de Roberto Pontual; em “150 anos de Pintura no Brasil (1820-1970)”, de Clarival do Prado Valadares; em “Uma Visão da Arte no Ceará”, de Roberto Galvão e Ignez Fiúza; e ainda em um livro escrito por Bruno Menezes intitulado VICENTE LEITE – GLORIA DA PINTURA BRASILEIRA.
VICENTE LEITE, em suas paisagens, a trabalhada palheta de verdes, constrói com perfeição uma sucessão de planos e luzes que registram com muita sensibilidade a atmosfera do ambiente. As paisagens botânicas do pintor impressionista são de uma sensibilidade cromática, sensual e repousante. Nas suas paisagens do litoral cearense, sente-se falta da força do vento no mar, provavelmente devido à sua pouca vivência nas praias do nordeste. Suas obras necessitam maior pesquisa por parte historiadores da Arte da Pintura, a fim de enaltecer este gênio da pintura do Ceará.

Por Theresita Araújo


Faculdade 7 de Setembro
Rua Alm. Maximiniano da Fonseca, 1395 -

Eng. Luciano Cavalcante - CEP 60811 - 020
Fortaleza - CE - Brasil -

Fone: +55 85 4006-7600 - Fax: +55 85 4006-7614

Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil

“Quando o Brasil era a Terra de Santa Cruz, as mulheres tinham de se enfear e os homens precisavam dormir de lado, nunca de costas, porque “a concentração de calor na região lombar” excitava os órgãos sexuais. E nos momentos a dois – geralmente no meio do mato, e não em casa, porque a chave era artigo de luxo e não era possível fechar as portas aos olhares e ouvidos curiosos – as mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Tirar a roupa era proibido. E beijar na boca? Bem... sem pasta e escova de dentes, difícil.”

Durante muito tempo os historiadores se limitaram a privilegiar os grandes acontecimentos políticos, elegendo seus protagonistas e listando metodicamente os fatos, nomes e datas. Contudo, a partir dos anos 70, testemunhamos o surgimento de inovações teóricas e metodológicas que abriram espaço para uma grande variedade de temas que até então não eram discutidos pela História tradicional. Essa abertura leva o historiador a questões ligadas ao cotidiano da sociedade, que incluem assuntos ligados a família, à saúde, à doença, à loucura, às mulheres, ao corpo, ao sexo.

Essa busca pelo caráter humano dos acontecimentos é uma das características da historiadora Mary Del Priore. Especialista em História do Brasil, e detentora de diversos prêmios literários, percebemos em sua produção a abordagem surpreendente de temas que foram considerados tabus durante muito tempo. O livro Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil, lançado no primeiro semestre desse ano, é um grande exemplo disso.

Na obra, a escritora ressalta as mudanças em torno do sexo e das noções de intimidade. Do Brasil Colônia ao nosso Império, acompanhamos uma narrativa envolvente e objetiva que nos revela como as condições políticas, econômicas e culturais influenciaram de forma determinante alguns elementos da vida íntima dos nossos antepassados. É impressionante a riqueza de detalhes sobre hábitos e costumes, resultado de uma intensa pesquisa que durou mais de dez anos e hoje nos leva aos bastidores da história do nosso país. A obra nos permite analisar a rapidez com que “a ditadura da contenção” se transformou em “ditadura do gozo”: inicia falando do repressor período colonial, passando pelo hipócrita e adúltero século XIX (que assistiu às aventuras de um imperador libertino), além de fazer uma análise da “descoberta do corpo” e revolução sexual nos séculos XX e XXI, sempre ressaltando casos curiosos, engraçados e instigantes.

Realmente, uma leitura prazerosa...


Por Luciana Rodrigues

A ARTE NÃO PRECISA DE JUSTIFICATIVA

O livro é no mínimo instigante e nos leva à reflexão de como, quando e porque fazemos ou gostamos de Arte. Fala de uma idéia de nos tornarmos criadores e adoradores daquilo que Deus nos colocou a disposição para que tudo tenha um propósito e não seja feito apenas por fazer. A arte não precisa de justificativa - nem por motivos religiosos ou propósitos evangelísticos, nem por fins econômicos ou políticos.
Deus deu à humanidade a habilidade de fazer grandes coisas: compor, escrever poemas, esculpir, pintar... as possibilidades artísticas existem para serem percebidas e executadas por nós.
Servem para comunicar, para representar valores, para decorar ambientes ou simplesmente ser belo. Já que a arte não precisa de justificativa, ninguém precisa se desculpar por fazer arte.
A Arte pode retratar a realidade fora de nós mesmos, como entendida e vista por nós. Tal realidade pode ser as coisas que vemos, mas também as coisas que experimentamos: amor, fé, afeto, justiça e todos seus respectivos antônimos.
O autor diz que “gosto não se discute” e isso já é um ditado popular: há os que gostam de rock, outros de música clássica, uns preferem paisagens, outros retratos. Embora nossas preferências não possam ser discutidas, nossas escolhas podem já que a qualidade e o conteúdo não são apenas questão de gosto, mas questão de norma.
 “As coisas têm valor por aquilo que são, e não pelas funções que exercem, por mais que estas sejam importantes.”

Por Cláudia Vendrametto

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Dom Poder e a Revolta da Natureza - Ritual e consciência

Depois do sucesso de Os Cactos, Ensaio para um silêncio e Encantrago – Ver de Rosa um Ser Tão, que percorreu o Brasil no Festival Palco Giratório, promovido pelo SESC, o Grupo Expressões Humanas retoma antiga montagem, desta vez com foco no público infantil. O grupo, que completa 20 anos de existência, segue preceitos de Eugênio Barba, Jerzy Grotowski e Antonin Artaud e realiza trabalhos na linha de pesquisa do Teatro Ritualístico desde a sua formação.

Não poderia ser diferente com Dom Poder e a Revolta da Natureza. O contato direto com o público é estabelecido logo na recepção deste, pelos atores, e mantido até o final da peça, onde se celebra a vida com uma grande ciranda. Os sentidos são estimulados pela composição cênica, com cores vivas e canções chicletes, fortes, alegres e suaves. Os espectadores são convidados a participar do jogo proposto, interagindo com a estória contada e interferindo criticamente nela.

Originalmente montado em 1992, o espetáculo teve sua estreia em abril deste ano, seguindo em temporada nos meses de maio e junho, no teatrinho Oca da Aldeia, na sede do grupo. Também realizou duas apresentações no Educar SESC, para 600 crianças. Posteriores temporadas estão previstas ainda para este ano. A montagem tem texto e direção de Herê Aquino, figurino de Yuri Yamamoto e canções de Helô Sales, Tony Fernandes, Venâncio de Sousa e Juliana Veras, que também assina a direção musical. Todas são executadas pelos atores, durante a encenação.

No elenco, Ana Amália Morais, Bio Falcão, Juliana Veras, Marina Brito e Péricles Davy dão vida a alguns entes muito importantes à mamãe-natureza. Aqueles que vemos, sentimos e usamos todos os dias e sequer nos damos conta do quanto desperdiçamos e maltratamos. Água, Sol, Árvore, Ar e Macaco reúnem-se para discutir seu futuro – e o de todos os outros – já que um tal de Dom Poder (Felipe Franco) resolveu que ele é quem mais importa. Precisam dar uma lição naquele que quer destruí-los para obter lucros e não tem um pingo de consciência ecológica ou de preocupação com qualquer outra coisa ou pessoa, além dele mesmo e seu dinheiro. Para tanto, tornam-se cúmplices das crianças e contam com elas para dar sugestões, bolar planos, protestar e até esconder Água e Árvore. Aparentemente frágeis perante um vilão tão cruel e poderoso, os elementos descobrem-se fortes, pois possuem um bem muito maior, desconhecido por seu inimigo e que, portanto, será sua arma secreta: a amizade.

Mais que uma peça para ensinar algo útil às crianças, pode-se dizer que Dom Poder e a Revolta da Natureza segue a ideia de que “a arte educa enquanto arte e, não, enquanto arte educativa” (Gramsci). Envolve crianças e adultos e leva a pensar sobre quando cada um  está na pele do Dom Poder, seja jogando papel pela janela do carro ou tomando banhos exageradamente longos. Mais, convida a refletir. Modifica.


Por Danieli Flores

Para saber mais sobre o grupo, vale acessar o blog ou visitar seu território teatral:
Aldeia Expressões Humanas: Rua Barão de Aratanha, 605, Centro (próximo à Av. Domingos Olímpio)


terça-feira, 28 de junho de 2011

Novos Olhares sobre Cândido Portinari

“Entre o cafezal e o sonho o garoto pinta uma estrela dourada...
Entre sonho e o cafezal, entre guerra e paz...
Entre o amor e o oficio, eis que a mão decide...
A mão infinita
A mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari” (A Mão - Carlos Drummond)

Exposição Portinari em cerâmica é uma interpretação da obra de Cândido Portinari, artista e político nascido no interior de São Paulo no inicio do século IX, Portinari é considerado o mais brasileiro artista plástico, pois retratava em sua obra as suas raízes, o povo brasileiro, era livre em suas criações, não se prendia a tendências, passeava por elas.

As obras expostas apresentam uma releitura da obra do mestre da pintura Cândido Portinari, as peças são esculturas e painéis produzidas em cerâmica, na sua maioria sobre madeira, por um grupo de 22 artistas, ceramistas de vários estados brasileiros e de outros países, produzidas no ateliê Vila Arte.

Três peças, das expostas, fazem uma releitura do Painel de azulejo da Igreja de São Francisco, mais conhecida como Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte – MG, duas delas são  painéis em cerâmica sobre madeira de demolição, que embora mantenha o formato original da obra, de painel, traz um olhar atual com o uso da madeira   vinda da demolição, já a terceira peça reflete um olhar mais  moderno, traz um outro formato, é uma escultura em forma de vaso (imagem ao lado), que além do caráter decorativo tem um viés utilitário. Outra peça que chama a atenção é a releitura da artista Denise Sabóia, Curadora da exposição, da obra Meninos no Balanço de Portinari, a obra original utiliza a técnica de pintura a óleo em varias cores, a artista apresenta uma peça em cerâmica com metais e madeira em apenas 4 cores com movimentos circulares para cima e para baixo, esta mobilidade provoca uma leveza, um sentimento de liberdade ao observá-la, refletindo bem a frase de Portinari “Sabe porque é que eu pinto tanto menino em gangorra de balanço? Para botá-los no ar feito anjos.”.

A releitura da obra Retrato de Cândida Darci Vargas, de 1944 é a expressão mais forte do olhar contemporâneo do grupo de artistas, se trata de um painel, tendo ao fundo uma colagem da obra original em papel japonês, sobre a colagem um vestido em  lacas de cerâmicas esmaltadas, pendurado por dois fios superiores quase invisíveis, o vestido fica  suspenso, flutuante, retrata a idéia dos dias atuais que são compacto, desconexos, da individualidade e da separação, onde na verdade tudo e todos estão conectados, interligados de alguma forma, mesmo quando não queremos.

Para os artistas esta releitura da obra de Portinari é um projeto ousado que busca uma nova forma de entender o mestre. Toda obra de arte pode ser relida, revisitada a partir da experiência e do sentimento de cada ser, é esta a proposta da exposição. Vale apena apreciar, pois é uma boa oportunidade para observar novos olhares sobre a obra de Cândido Portinari.


Por Luciana Eugênio


Exposição Portinari em Cerâmica
Período: 22/jun/2011 a 31/jul/2011
Ter à Qui: 9h às 19h - Sex à Dom: 14h às 21h
Local: Espaço Multiuso do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Infomações: (85) 3488 8600

N.D.A. Uma aventura experimentalista de Arnaldo Antunes pela poesia

Desde os anos de 1980 o poeta e compositor Arnaldo Antunes constrói uma trajetória bastante singular, desenvolvendo um trabalho artístico capaz de conciliar suas experiências com a música popular, com as artes plásticas e com a poesia.

Com vários livros publicados no Brasil, um na Espanha e um em Portugal, seu último livro de poemas n. d. a. (abreviatura de nenhuma das alternativas) e título de um dos poemas do livro (São Paulo: Iluminuras, 2010; 207 páginas; 42,00 reais), mostra uma busca marcante pela síntese, ritmo e sonoridade, tendo o movimento e a arte gráfica como elemento de significado.

Arnaldo Antunes não gosta de rótulos, mas observa-se nele, forte influência da poesia concreta, que se caracteriza por um antagonismo em relação aos recursos poéticos tradicionais. Antidiscursiva, a poesia concreta aboliu o verso e a estrofe; a disposição das letras e/ou palavras passou a explorar o espaço em branco do papel, que se torna parte integrante de sua composição. O poema ganha uma pluralidade de possibilidades interpretativas, não apenas no significado dos vocábulos, mas também em seus aspectos materiais como a sonoridade e a visualidade.

a materialidade da palavra nas experiências de linguagem é um dos pontos mais fortes na estética desenvolvida por Arnaldo Antunes e presentes neste livro: fragmentação de núcleos vocabulares; subversão, ou, em alguns casos, eliminação da sintaxe; exploração de recursos não verbais como forma de excitar outros níveis de significação do verbal. Montando, desmontando e remontando palavras, o poeta cria uma aventura lingüística, usando imagens que não são tipicamente poéticas, muitas delas, bizarras.

O livro n. d. a. traz ainda uma parte de Cartões Postais — reunião de fotos de placas e escritos urbanos que, deslocados de seu contexto original, adquirem poeticidade, gerando novos significados. A sequência das fotos acaba por sugerir uma narrativa oculta, que associa locais diferentes por elos de sentidos imprevistos.

Ao situarmos a poesia de Arnaldo Antunes no universo da cultura atual em que o mundo sofre uma veloz transformação, acreditamos que o poeta busca sempre novas formas de manter-se no mundo e de interferir nele. O livro  n. d. a. traduz o esforço escritural do poeta de diferenciação do comum e a tentativa de fixar sua individualidade estética.


Por Fátima Sena

Millennium 1 (Os homens que não amavam as mulheres)

“Os homens que não amavam as mulheres” (Título original sueco: Män som hatar kivnnor. São Paulo: Companhia das letras, 2008, tradução Paulo Neves) é o primeiro livro da série Millennium, criação do escritor Stieg Larsson, jornalista e ativista político na Suécia. Morreu, pouco tempo depois de entregar a seus editores a trilogia Millennium, vítima de um ataque cardíaco.

Este livro narra a história de Mikael Blomkvist, um conceituado jornalista investigativo e também sócio proprietário da revista Millennium, apelidado ainda jovem de super-Blomkvist por ter ajudado a polícia a encontrar uma quadrilha de assaltantes de banco. Blomkvist, em meio a um escândalo, é condenado a três meses de prisão por calúnia e difamação contra uma importante figura do mercado financeiro sueco, o Sr. Hans-Erik Wennerström. Em meio ao abalo de sua credibilidade e a constante perda de investidores na revista, Mikael recebe a inesperada proposta de um senhor, Henrik Vanger, para solucionar o caso do desaparecimento de sua sobrinha, Harriet Vanger, ocorrido há quase quarenta anos, tendo como desculpa o interesse em escrever a biografia da família Vanger. Mesmo acreditando ser impossível descobrir o que aconteceu com Harriet, Mikael afasta-se da revista Millennium, muda-se para Hedeby, parte antiga de Hedestad, e mergulha na história de cada personagem da família Vanger, tratando cada um como potencial suspeito. Ele, então, percebe que o caso de Harriet, para Henrik, é uma obsessão, confirmada no volume de documentos adquiridos e investigações minuciosas realizadas por este ao longo desses quase quarenta anos. Isso faz com que Mikael solicite ajuda de um investigador particular e descobre que ele foi alvo de uma investigação solicitada por Henrik. Impressionado com o detalhamento de sua vida particular compilado em um dossiê, vai à busca da investigadora responsável, Lisbeth Salander.

Lisbeth, uma competente investigadora da empresa Milton Security, apresenta sérios problemas de socialização e tendências violentas, porém é muito ética e fiel a seus princípios. Ela tem vinte e cinco anos, mas por sua estatura e porte físico não parece ter atingido a maior idade.  Veste-se como punk, com roupas pretas de couro e tem muitas tatuagens e piercings, e é uma genial hacker. No entanto, Mikael é um solteiro convicto charmoso de quarenta e poucos anos e vive um triangulo amoroso com Erika Berger, sócia proprietária da Millennium, mas sempre está aberto a novos romances. Por meio da investigação do caso Harriet, Mikael e Lisbeth vivem intensamente uma relação muito além da profissional. Em uma envolvente trama de suspense, os dois deparam-se com um impressionante histórico de violências cometidas contra mulheres. Após desvendarem o mistério, Mikael passa a ter uma enorme dívida de gratidão com Lisbeth por ela ter salvado sua vida.

“Os homens que não amavam as mulheres” é um romance policial com boas doses de violência, com um enredo completamente diferente de tudo que já li do gênero. O texto do autor leva a uma reflexão acerca da discriminação contra minorias e coloca em posição central uma anti-heroína sociopata que surpreende a cada capítulo. E este livro é apenas o início das aventuras desta garota.


Por Renata Goes

"A Assassina" - Morte e vida no Teatro Cearense

Tudo escuro, espectadores envolvidos no clima de suspense proposto pela sonoplastia da peça “A Assassina”, que ficou em cartaz até o final de semana 25 e 26 de junho no Sesc Emiliano Queiroz, em Fortaleza. Um assassinato e a magia do teatro tem o seu início. O clichê é claramente utilizado como inspiração cênica nesse primeiro momento do espetáculo, além dele é nítida a presença das novelas mexicanas na ambientação e nas interpretações marcadas pelo over das máscaras faciais. É over, mas cabe dentro da proposta, não fica estranho ao público, é verossímil.

Destaque para o monólogo que segue a cena de assassinato, onde o personagem Pedro Augusto Fernando ao som de um tango “brinca” em cena moldando sua máscara facial de acordo com a intenção da música.

Tudo caminha para um dramalhão mexicano até a entrada do “diretor” em cena que desfaz com os elementos de encantamento (elementos que buscam levar o espectador a outra atmosfera) e então nos vemos diante de um ensaio e não mais de uma peça pronta. A partir de então é meta-teatro e é importante que o espectador tenha consciência do lugar em que ele está, pois toda a peça se desenvolverá a partir dos questionamentos do fazer teatral.

É interessante ver as transições dos atores que passam de personagens fictícios a “atores fictícios” para serem novamente personagens, pois se trata de várias peças dentro de uma e cada ator interpreta no mínimo três personagens além de aparecer em cena enquanto ele mesmo.

Apesar de utilizarem de linguagem própria ao meio teatral muitas das tiradas são compreendidas pelo público em geral e as que se tornam herméticas demais não atrapalham a compreensão do espetáculo.

A peça vem justamente para questionar qual o público de teatro aqui de Fortaleza se não os próprios integrantes do movimento teatral. Precisamos pensar em propostas que tragam o teatro como opção viável de lazer para a população da cidade.

Tudo caminha muito bem durante o espetáculo, a peça tem ritmo, a platéia não se cansa, pois logo aparece um elemento novo em cena e o humor inteligente é na medida certa.

Um desses elementos novos causa certa estranheza, tudo parece terminado, os atores estão em cena comentando o espetáculo entre si quando uma atriz envenena e mata os colegas de cena e comemora o feito num crescente de loucura e egocentrismo cênico. A “assassina” deseja um teatro só dela, onde todas as funções sejam suas: diretora, atriz, figurinista...

Causa estranheza, pois a linguagem utilizada até então nos faz pensar que já não existem mais personagens em cena e sim atores e a verossimilhança do início não se aplica nesse momento.

Após esse momento temos realmente os atores em cena, numa cena belíssima a platéia é levada da comédia à reflexão, questionando as dificuldades de se fazer e viver de teatro na cidade. Drama vivido na prática pelos integrantes do grupo. O Teatro Elo é formado por atores graduados em Artes Cênicas pelo IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará) que lutam para se sustentar e mostrar que teatro é trabalho sério sim!

São cinquenta minutos de diversão garantida, para quem já conhece o meio teatral e para quem vai aprender um pouco com o espetáculo.

Para saber mais acesse: http://www.teatroelo.com/


Por: Camila Barbosa

DE ABELHAS, ARTE E BELEZA

Sem a pretensão de dar respostas, costuro a seguir questões sobre o conceito e a função da arte, a partir de dois artigos: "Tori’s weird world" (1) de T’Cha Dunlevy e "A arte deve ser a exaltação da vida" (2) de Arnaldo Jabor, problematização que creio pertinente para esse espaço virtual.

À época do lançamento de "The Beekeeper" (2005), oitavo álbum da cantora, compositora e pianista norte-americana Tori Amos, chamaram-me a atenção para o artigo "Tori’s weird world" de T’Cha Dunlevy que discorre sobre o conceito e o processo de criação da artista, a partir da citada obra musical. Gostaria de compartilhar minhas impressões com o amigo leitor, a despeito dele (ou dela) conhecer ou não a singular personalidade de Amos, pois sua contextualização permite-nos boas e contemporâneas questões a posteriori.

Assumindo o apicultor do título, Amos indica que o mel de abelha simboliza a sexualidade sagrada, cujo sentido ela tenta resgatar desconstruindo a idéia de pecado original. Incitada por Sophia, controversa face feminina do deus judaico-cristão, sua personagem prova do fruto proibido para tornar-se mais consciente de sua sensualidade (leia-se sinsuality) e suas relações interpessoais. Cada canção, uma nova descoberta, perpassando diferentes arquétipos femininos, como também subtendendo críticas políticas, no sentido mais amplo do termo.

Destaco, entretanto, suas declarações pertinentes ao sentido do arranjamento dado às canções desse álbum, no que ela evoca a imagem das abelhas colhendo o néctar para a feitura do mel:

"Melodicamente, eu estava tentando muito criar um efeito que pudesse incorporar o que uma abelha faz quando ela vai ao orgão de uma flor e colhe o nectar, e delicadamente espalha-o ao redor. Ela cria esse trabalho profilático apenas sendo uma abelha."

Abro um parênteses para observar que "The Beekeeper" exala particularmente uma atmosfera musical melodiosa e harmônica no seu conjunto. Não que o mesmo não se dê em trabalhos anteriores da artista, laboriosa em ajuntar elementos musicais e poéticos para compor trabalhos atrativos e coesos. A peculiaridade em "The Beekeeper", entretanto, é o evitamento do ruído, a costura cuidadosa de "backing vocals", o criativo diálogo entre órgão e piano. Diz-se entre os fãs tratar-se do álbum mais "pop" de Tori Amos. Ela explica:

"Eu estava tentanto combater a violência com criatividade. Eu não queria espelhar (a destruição ao nosso redor) com música discordante. Na feitura do mel, tem que existir uma suavidade e uma concordância harmônica entre a natureza e a criatura."

E continua:

"O que eu quis criar com o órgão e o piano, juntando flor e abelha, não foi o conflito, mas a procriação, num tempo em que a procriação pode ser classificada como pecaminosa."

À época, lendo essas metaforizações de Amos sobre "The Beekeeper", lembrei-me imediatamente de um artigo lido do Arnaldo Jabor intitulado "A arte deve ser a exaltação da vida". A despeito de quem o ama ou o odeia, o autor apresenta uma visão sobre os rumos do fazer artístico nos dias de hoje, a de que a arte estaria perdendo sua função "transcendente" para ser uma arte "engajada", o que, no seu entender, desvalorizaria a beleza em favor de uma "busca deliberada da feiúra". Ponto de partida para essa reflexão, o autor descreve suas impressões sobre sua visita à 27ª Bienal de São Paulo:

"Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiúra, uma clara vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer."

Engajada, a arte colocaria-se como panfletária dos males do mundo, representando sua desarmonia e, por consegüinte, denunciando seus horrores. Entretanto, o autor qualifica negativamente esse movimento, tanto por entendê-lo inútil como "denúncia", já que a própria realidade estaria produzindo eventos mais chocantes que qualquer "panfleto" artístico, vide os noticiários, como por entendê-lo extraviador do sentido maior da arte, a seu ver, a transcêndencia. Uma arte da transcendência seria uma arte libertadora, a qual promoveria "um sentido misterioso mais imperioso para a vida", acessível na beleza, na harmonia, na fruição poética. Cita Stravinsky: "A obra de arte deve ser exaltante". E argumenta que "desistir da beleza é uma confissão de derrota, é legitimar os inimigos".

Pondera o autor:

"Claro também que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, sem desistir da criação como esperança e vitalidade."

Retomando Tori Amos, vale ressaltar, tendo em vista quem desconhece sua vasta obra musical, que a artista já compôs (e ainda compõe) canções bem destoantes daquelas presentes em "The Beekeeper", onde o belo é o horror – a crueza da violência sexual de "Me and a gun" no confessional “Little Earthquakes” (1992) ou a grosseria de uma agressão verbal de "Fat slut" no politizado "American Doll Posse" (2007).

Deixo para o leitor, portanto, responder-se o que é arte e qual lhe seria nos dias de hoje a função da arte – se ele (ou ela) julgar que a arte pode ser assim definida.

LINKS:



Por Robert Veras

A loja de pianos da Rive Gauche

Adorável exploração das delícias do piano e da vida parisiense”. (Sunday Express)

Um romance de rara sensibilidade sobre a redescoberta do amor pela música. A loja de pianos da Rive Gauche é uma silenciosa e apaixonante história sobre o piano e sua importância na vida francesa e na vida do próprio autor, lê-se na contracapa deste livro de bolso, um presente musicalmente apaixonante que ganhei da minha professora de piano no meu último aniversário. É sem dúvida um dos melhores livros que li este ano.

A história se passa nos anos 90. O próprio autor, o escritor americano Thaddeus “Thad” Carthart, escreve em primeira pessoa. Carthart nasceu nos anos 50, no interior da França, filho de um militar americano acantonado no país. Foi lá que passou a infância. Já no ensino fundamental francês o garoto teve suas primeiras aulas de piano. Quando completou 10 anos, seu pai foi transferido de volta aos Estados Unidos, onde o garoto continuou a estudar piano pelo prazer que sentia; ele nunca sonhou ser concertista, tinha consciência dos próprios limites. Quando chegou a high school, e de lá a universidade, abandonou o piano. E passaram-se 20 anos.

Já nos anos 90, Carhart, trabalhando como jornalista, casado e com dois filhos consegue realizar o antigo sonho de voltar a morar na França. A partir desta mudança o livro se desenvolve. A família se instalou num pequeno apartamento, na Rua Rive Gauche. Todas as manhãs, Carhart saía para levar os filhos à escola. Depois, no caminho de volta , parava num café de uma ruazinha tranquila e estreita. Através da vitrine do café, Carhart enxerga uma loja chamada “Desforges Pianos”. Este é o início do romance, que se segue com a descoberta do piano perfeito para Carhart, sua aquisição, o cuidado com o instrumento e o retorno dele as aulas de piano. Tudo isso pontuado pelas lições surpreendentes e observações saborosas de Luc, um funcionário da loja, que no decorrer do livro se torna proprietário da mesma, e muito amigo de Carhart. Não acho justo falar mais sobre seu desenvolvimento, pois anteciparei aos que possam interessar tão agradável leitura. O livro é uma declaração de amor ao instrumento. Gostoso de ler, rapidamente é concluído. Uma leitura indispensável aos amantes do piano.

T.E. Carhart nos remete tanto à história da música erudita, quanto à história a história do piano como instrumento; dá-nos como referência de seu aparecimento, o ano de 1694, e seu inventor, Bartolomeu Cristofori. Descreve o aperfeiçoamento pelo qual o piano foi passando e sua repercussão nos meios musicais com as novas composições feitas para ele, como as sonatas de Haydn e Mozart. Em alguns capítulos pensei como seria bom se tivesse fotos dos pianos citados, mas logo vejo como minha imaginação se encarregou de vê-los no pensamento, o que sem dúvida eu não faria se tivesse a ilustração.

Um livro para ler ao som de um bom piano, com pausa para dar atenção exclusiva a este som, imaginar quem o produz, em qual período da música foi composto e esperar pela cadência que virá ao final da execução. E, logo após retomar a leitura, ansiosa por notas de música e sensibilidade.

Com certeza merecedor do prêmio de um dos melhores livros do ano em 2001, pelo The Washington Post Book World.

Por Paula Franco de Almeida

As Vizinhas no Teatro da Praia

O Teatro da Praia completa, neste ano de 2011, 15 anos de existência insistente, e neste mês de junho abre as portas com o espetáculo “As vizinhas” assinado pela Cia Cearense de Molecagem, dirigida pelo ator e dramaturgo Carri Costa.
Apesar de uma discreta platéia, devido à pouca divulgação para esta temporada, o espetáculo acontece com toda alegria de uma casa cheia. O esforço dos atores vai além da caracterização das personagens, eles contam com ritmo, improviso, presença cênica e muito talento, transformando o humor cearense em teatro.
O espetáculo estreou em 2005 e já foi visto por mais de 20.000 pessoas. A história se passa dentro de um condomínio situado no bairro “leste-oeste” em Fortaleza, onde mora D. Francisca, ou simplesmente “Kika”, uma mulher de subúrbio, um tanto debochada, que é surpreendida, em seu primeiro dia de férias como merendeira, com uma nova vizinha, a Sra. Idenilce ou Nilce, uma socialite recém divorciada que foi obrigada a se mudar para o condomínio Salseiro, após ter sido traída e enganada pelo marido Juraci.
A comicidade acontece porque as duas são completamente diferentes e cada uma, de seu jeito, vai fazer de um relacionamento forçado algo hilário. Mulheres de vidas opostas que através da convivência descobrem mais semelhanças entre si do que poderiam imaginar, oculto na solidão que cada uma leva.
Além deste cômico espetáculo, o Teatro da Praia traz como incentivo o cartão Fidelização para o publico apreciador de comédias, incentivando o público com a campanha Seja um Amigo do Teatro da Praia trazida no site do teatro, onde todos podem se cadastrar enviando um e-mail para teatrodapraia@hotmail.com.br.  O espectador recebe uma carteirinha do teatro e ganha descontos de 50% na inteira e meia em todos os espetáculos em cartaz. Vale a pena conferir!

Por Alessandra Freitas

Comunidade dos Tapebas – tradição e resistência

O Museu do Ceará, desde o dia 12 de maio até o final de julho, recebe as exposições “Encantados das águas - os Mitos das Águas Presentes nas Histórias do Povo Tapeba" e “Ambientes Aquáticos Tapeba - Avifauna" que fazem parte do acervo do Memorial Cacique Perna-de-Pau, localizado no Território Tapeba, em Caucaia.

Com a curadoria da cientista social Gustava Bezerril, as duas exposições manifestam solenemente um pouco da cultura, das crenças, do território, dos hábitos, da história e dos ambientes aquáticos da comunidade que resiste ao tempo.

O resgate de nossa origem, a cultura indígena, enfatizando os locais considerados importantes para o povo, bem como a fauna presente no rio Ceará aparecem de forma sublime e, de fato, encantada.

Comecei com os “Ambientes Aquáticos Tapeba - Avifauna". Cada ave clicada em momentos de pura espontaneidade, manifestando seu instinto natural, me fez recordar de como um dia quis ser ave. Sua beleza e liberdade sem dúvida dias e dias já foram fortemente invejadas pelos humanos. Embora haja certa fragilidade em suas penas, seu tamanho, a sua habilidade para voar rapidamente se destaca entre os seres da natureza. Dentre a diversidade de espécies, algumas são bem populares e curiosas como a lavadeira, o periquito do sertão, o tetéu, dentre outros também bastante conhecidas.

Na exposição “Encantados das águas - os Mitos das Águas Presentes nas Histórias do Povo Tapeba" encontram-se vários locais cheios de significados míticos. As imagens foram capturadas pelos próprios índios, que relatavam os significados daqueles determinados locais para suas vidas. De todas as imagens a que mais se destaca é o terreiro, não somente pela sua grandiosidade em termos de espaço, mas principalmente pela sua caracterização no cotidiano da comunidade. O terreiro é o templo da tribo. É o local onde buscam renovar suas energias, fazem seus agradecimentos, conversam com o seu próprio Criador e o de toda aquela natureza que os torna vivos. As reuniões nesse espaço, no terreiro, são sacro-santas, tornando cada minuto da vida um tempo único para servir e ser feliz.

Cada pessoa que vai ao encontro dos índios Tapebas, através das exposições, sai com orgulho por ter raízes fincadas em tamanha riqueza cultural. E o encantamento com a beleza, simplicidade, sabedoria de pessoas tão desprovidas de letramento, é fato. O conhecimento do povo indígena foi herdado, vem junto com a vida, com as experiências. Almas assim, tão bem desenhadas, dificilmente se perdem em tão grande mundo. Um índio sempre será reconhecido, mesmo que esteja sozinho em qualquer lugar.



Por Evelyne Pessoa.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

OUI: SPETACLE!

No último final de semana deste junho de 2011, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura recebeu o sublime espetáculo Os meninos bailarinos de Paracuru, contemplado com Prêmio Kauss Viana de 2009. Paracuru é uma cidadezinha pequena do litoral cearense, há cerca de uma hora e meia da capital. Uma cidadezinha linda e com uma brisa de fazer inveja à Fortaleza-dela e que conta com essa que é a segunda maior escola de ballet masculino do país.

O espetáculo tem quatro peças. A primeira peça, sem título, tinha em cena dez bailarinos piruetando um ballet clássico que me pareceu desarranjado, tanto pela coreografia quanto pela performance de suas pernas que tremiam nos ares. Pensei que a coisa seguiria na mesma, mas eu sou uma criança nesse mundo que se me oferece uma caixa de surpresas e glórias.

A segunda peça, Remanso, é baseada num conto de Gabriel García Marquez, sobre a amizade de três garotos à época da Guerra Civil Espanhola. De objeto cênico só havia um "muro" cenográfico e uma rosa. Quatro sonatas de Domenico Scarlatti fez bailar o corpo daqueles três jovens. Uma peça tão lúdica e verdadeira que me levou às lágrimas. Por me lembrar que é possível sim ser anjo na terra, se irmandar; que muito mais que o belo há o sublime. E ainda bem que ouvi a apresentação do título, caso contrário pensaria se tratar de algo homoerótico, mas não: trata-se puramente de homoternurismo.

A terceira peça, Mova-se, me chacoalhou de verdade. A música, uma mistura do trip-hop de Portishead, com Hermeto Pascoal, Moby e Naná Vasconcelos. O apresentador disse se tratar do vigor da juventude, mas os movimentos dos dez bailarinos em cena, aqui homens e mulheres, numa explosão de movimentos sincopados, ao chão, ao ar, se fundindo e se desagregando e se repetindo, me fez pensar na questão da alienação do trabalho mecanicista. Mas sim: quanto vigor ostentam aqueles corpos atléticos - e até os mais cheinhos - e seus movimentos rápidos e precisos como dos animais. Somos mais que animais?

A quarta peça, Folganza, trata daquelas brincadeiras que fazíamos na rua. Digo fazíamos porque nas grandes metropóles isso é impossível, mas talvez não em uma cidadezinha como Paracuru, onde não há cinemas, shoppings e onde é possível andar nas calçadas sem o alvoroço de lojas e comprantes, onde tem mais bicicletas e pedestres que carros e a vida civil é um sussuro sinfônico. Em cena os dez bailarinos, coloridos, de maria-chiquinhas e outros elementos de figurino que remetiam à infância, ao som do Barbatuques. Seus movimentos fortes, retos, alquebrados, precisos, nos levava de volta à infância com cirandas, pique-esconde, bugalhos, estrela-nova-sela, fofocas, pula-corda, amarelinha, estrela, e tantas outras que brincava e que desconhecia.

Lavínia, a menina de quatro anos ao meu lado tentava imitar todos os movimentos dos bailarinos, levantada as pernas, dava piruetas, caia, e quando vinha me dizer "que lindo, né mamãe?" era sussurrando aos meus ouvidos e muito rápido, pra que ninguém perdesse aqueles minutos preciosos em que abstraímos nossas realidades e podíamos ser crianças e enchíamos nossos olhos de possibilidades, aventuras e sonhos. Mas não era só ela. Quando acenderam as luzes e as pessoas começaram a sair do teatro, parecia que todo mundo tinha mais consciência do seu corpo, que tinham absorvido o Mova-se e já fora do teatro mexiam-se e se esticavam e pulavam em Folganza.

E vim pra casa, em Remanso, com um gosto de rosa na boca, a querer pular o muro e achegar aos meus pares na mais pura ternurânsia.

PARA saber mais sobre o grupo, leia o texto de Jefferson Corculho Peixoto: Cabra marcado para bailar, IN: Revista Trip on line, Especial Saber [http://revistatrip.uol.com.br/169/especial/03.htm].


Por Nina Rizzi

Um silêncio para um recomeço

O curta-metragem “O Começo”, dirigido por Camila Vieira, jornalista, mestra em Comunicação pela UFC e aluna do curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes, é uma obra que se debruça de forma silenciosa, delicada e precisa sobre o fim de um relacionamento.

O curta foi um dos 4 que resultaram do ateliê do ciclo “Imagem e Narrativa”, o primeiro da segunda turma de Realização em Audiovisual da Vila das Artes (Prefeitura Municipal de Fortaleza/ UFC).

No início, temos uma praia. O plano se divide entre os espaços enigmáticos – areia,mar e céu. Lentamente começamos a ver ao longe, no canto direito, uma figura que aos poucos identificamos como um rapaz que vem andando devagar pela areia da praia, carregando um baú.

Durante a espera, ele acaba por cochilar e acorda com carícias em seu cabelo – as mãos são de uma moça, que chega trazendo uma bolsa e uma pá.

De dentro do baú e de dentro da bolsa eles tiram os objetos que marcaram momentos importantes do seu relacionamento. Aquele encontro se trata do fim desse relacionamento, um fim ritualístico, que dá ao casal a oportunidade de realmente se despedir de tudo, para partirem para um novo começo, como o próprio título do curta-metragem indica. Atitude louvável a da diretora de presentear esse casal com esse ritual final de despedida, coisa não tão comum nos fins de relacionamento.

No caso do curta-metragem, a moça se perde um pouco em cada objeto enquanto os manuseia, resgatando pela ultima vez tudo o que cada souvenir representa, antes do casal se livrar deles por completo, enterrando o baú com todos eles na areia da praia.

Essa ação se dá de forma conjunta, porém muito diferente. O rapaz enterra o baú com grandes passadas de areia, e, pequena e suave, a mão feminina deixa que os grãos escorreguem vagarosamente da única mão que ela usa para enterrar o baú, sem pressa.

Antes do ultimo plano, que retrata a tríade enigmática areia, mar e céu, o casal se dá de presente um último e longo abraço para depois apareceram um distante do outro, sendo essa distância preenchida por um longo pedaço de “vazio” e tudo o mais que se pode haver nessa metáfora.

Através de uma enorme maturidade e destreza na sua direção, Camila consegue deixar transparecer em seus planos estendidos, precisos e meticulosamente traçados, todo o turbilhão ainda em forma de vazio daquele fim.

Utilizando-se de planos, atuações e mise-en-scène minimalistas, a atriz foge da opção comum de retratar esse tipo de situação através do melodrama, decisão que beneficiou imensamente o filme, conseguindo trazer com êxito, nos gestos e expressões naturalistas e contidos dos atores, todo o drama que cabe àquele contexto.

O filme, apesar de silencioso, fala claramente a todos os que já experimentaram o fim de um relacionamento. Apesar de silencioso e delicado, ele grita ao público de forma muda todas as dores, aflições e angústias despertadas durante um rompimento.


Por Rafaela Diógenes

Quem é Edmar de Freitas?

Cidadão que busca fazer sua parte na construção de uma sociedade mais junta.
Nascido em Limoeiro a 3 de abril de 1954,ano em que o Brasil passava por uma turbulência política envolvendo o segundo mandato do presidente Getúlio Vargas.O poeta Edmar Freitas homem que sempre tem dedicado sua vida  a lutar por melhorias do seu bairro  messejana,escritor de várias obras poéticas dentre elas a história de messejana,um lugar mágico.
Nesta obra poética Edmar Freitas fala do bairro,da beleza do mesmo não reconhecida pelos seus moradores.veja uma luta constante do poeta para ser reconhecido, pois nem todos valorizam a arte.
Depois de muitas tentativas Edmar Freitas tem sua poesia escrita em lugar visível,ou seja nos muros do estádio Murilão no seu bairro.
Agora creio que algumas linhas serão lidas por seus moradores, esses que pouco valorizam a arte,talvez por falta de condições financeiras que contribuem para que isso aconteça,pois vivemos em  um mundo capitalista onde as oportunidades surgem só para quem tem dinheiro.


Por Ana Freitas

A Cor Púrpura

"A cor púrpura" (Título Original: The Color Purple; 1985; 154 minutos; EUA) do consagrado diretor norte-americano Steven Spielberg, conta a história de uma mulher que passou a vida se submetendo às decisões das pessoas que estavam ao seu redor resultando em uma série de traumas que moldaram uma pesonalidade que se resumia em uma palavra: resignação.

O filme é baseado no romace da escritora Alice Walker e trata de questões como discriminação racial, discriminação contra a mulher e ainda de abuso sexual. A história  trata da vida de Celie, interpretada pela atriz Whoopi Golberg, que desde a adolescencia conhece o lado mais cruel do ser humano. Com a morte de sua Mãe, Celie passa a ser abusada sexualmente pelo seu pai. Desses abusos Celie engravida mais de uma  vez,  porém, suas crianças são levadas, causando um grande dano em Celie. Logo em seguida Celie se casa com o cruel Albert, interpretado por Danny Glover. A única pessoa  que realmente amava Celie era sua irmã caçula Nettie, interpretada pela atriz Akosua Busia, que além de lhe dar amor e carinho também lhe dá um dos melhores presentes que Celie recebe na vida, Nettie ensina Celie a ler e escrever. Posteriormente Nettie é separada de Celie, representando mais um drama na vida de Celie.
A separação "fraternal" que ocorre no filme serve para demonstrar o valor da educação na vida de Celie, que com o passar dos anos aprimora sua leitura e sua escrita  para o sonhado dia em que terá em suas mãos as cartas de sua irmã. Um dos momentos mais encantadores do filme é quando Nattie ensina sua irmã a ler usando os objetos da casa, representando para Celie muito mais que um momento de aprendizagem, para Celie, aquelas aulas marcam suas lembranças como um dos momentos mais ternos e puros de sua vida.
Ao decorrer do filme, Celie sofre abusos sexuais de seu pai de seu marido, entretanto, ambos deixam claro que a cosideram uma mulher extremamente feia. Além dos danos causas pelas agressões sexuais, Celie passa a vida se enxergando pelas ofensas dessas pessoas ferindo profundamente sua auto-estima, pois, para o seu pai ela não é tão bonita quanto a sua irmã, e para Albert, Celie não é tão bonita quanto Shug Avery. Albert nutri uma paixão "mal resolvida" com Shug, interpretada por Margaret Avery, uma cantora "mundana" filha de um pastor que por anos a renega.
Abert, demostrando um total desrespeito por Celie, leva Shug para passar uma temporada em sua casa. Porém, o que deveria ofender Celie, acaba sendo um fato determinante em sua vida, pois, ao contrario de Celie, Shug, mesmo com dolorosas feridas, é uma mulher forte e determinada e descobrindo o quanto Celie é bondosa passa a mostrar que todas as mulheres são maravilhosas e especiais mesmo que a sociedade diga o contrário. Shug, literalmente, ensina Celie a sorrir, assim, Celie passa a se ver de uma forma diferente.
Ser bonita, ser notada, ser respeitada. Celie descobre que ser tratada como um ser humano não é algo que se recebe "via caridade", mas sim, um direito inerente a todas as pessoas, independente de sua cor, nível cultural ou sexo. Depois de todo sofrimento, Celie finalmente descobre que o rumo que sua vida toma depende fundamentalmente de como cada pessoa se porta, de como cada pessoa decide, de como cada pessoa enfrenta.
O filme "A Cor Púrpura", emociona e motiva o lado obstinado dentro de cada telespectador, pois, muito da vida de cada pessoa ou muito do que cada pessoa planeja está "a uma atitude" de distância. 

Por Geila Honorato