terça-feira, 28 de junho de 2011

DE ABELHAS, ARTE E BELEZA

Sem a pretensão de dar respostas, costuro a seguir questões sobre o conceito e a função da arte, a partir de dois artigos: "Tori’s weird world" (1) de T’Cha Dunlevy e "A arte deve ser a exaltação da vida" (2) de Arnaldo Jabor, problematização que creio pertinente para esse espaço virtual.

À época do lançamento de "The Beekeeper" (2005), oitavo álbum da cantora, compositora e pianista norte-americana Tori Amos, chamaram-me a atenção para o artigo "Tori’s weird world" de T’Cha Dunlevy que discorre sobre o conceito e o processo de criação da artista, a partir da citada obra musical. Gostaria de compartilhar minhas impressões com o amigo leitor, a despeito dele (ou dela) conhecer ou não a singular personalidade de Amos, pois sua contextualização permite-nos boas e contemporâneas questões a posteriori.

Assumindo o apicultor do título, Amos indica que o mel de abelha simboliza a sexualidade sagrada, cujo sentido ela tenta resgatar desconstruindo a idéia de pecado original. Incitada por Sophia, controversa face feminina do deus judaico-cristão, sua personagem prova do fruto proibido para tornar-se mais consciente de sua sensualidade (leia-se sinsuality) e suas relações interpessoais. Cada canção, uma nova descoberta, perpassando diferentes arquétipos femininos, como também subtendendo críticas políticas, no sentido mais amplo do termo.

Destaco, entretanto, suas declarações pertinentes ao sentido do arranjamento dado às canções desse álbum, no que ela evoca a imagem das abelhas colhendo o néctar para a feitura do mel:

"Melodicamente, eu estava tentando muito criar um efeito que pudesse incorporar o que uma abelha faz quando ela vai ao orgão de uma flor e colhe o nectar, e delicadamente espalha-o ao redor. Ela cria esse trabalho profilático apenas sendo uma abelha."

Abro um parênteses para observar que "The Beekeeper" exala particularmente uma atmosfera musical melodiosa e harmônica no seu conjunto. Não que o mesmo não se dê em trabalhos anteriores da artista, laboriosa em ajuntar elementos musicais e poéticos para compor trabalhos atrativos e coesos. A peculiaridade em "The Beekeeper", entretanto, é o evitamento do ruído, a costura cuidadosa de "backing vocals", o criativo diálogo entre órgão e piano. Diz-se entre os fãs tratar-se do álbum mais "pop" de Tori Amos. Ela explica:

"Eu estava tentanto combater a violência com criatividade. Eu não queria espelhar (a destruição ao nosso redor) com música discordante. Na feitura do mel, tem que existir uma suavidade e uma concordância harmônica entre a natureza e a criatura."

E continua:

"O que eu quis criar com o órgão e o piano, juntando flor e abelha, não foi o conflito, mas a procriação, num tempo em que a procriação pode ser classificada como pecaminosa."

À época, lendo essas metaforizações de Amos sobre "The Beekeeper", lembrei-me imediatamente de um artigo lido do Arnaldo Jabor intitulado "A arte deve ser a exaltação da vida". A despeito de quem o ama ou o odeia, o autor apresenta uma visão sobre os rumos do fazer artístico nos dias de hoje, a de que a arte estaria perdendo sua função "transcendente" para ser uma arte "engajada", o que, no seu entender, desvalorizaria a beleza em favor de uma "busca deliberada da feiúra". Ponto de partida para essa reflexão, o autor descreve suas impressões sobre sua visita à 27ª Bienal de São Paulo:

"Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiúra, uma clara vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer."

Engajada, a arte colocaria-se como panfletária dos males do mundo, representando sua desarmonia e, por consegüinte, denunciando seus horrores. Entretanto, o autor qualifica negativamente esse movimento, tanto por entendê-lo inútil como "denúncia", já que a própria realidade estaria produzindo eventos mais chocantes que qualquer "panfleto" artístico, vide os noticiários, como por entendê-lo extraviador do sentido maior da arte, a seu ver, a transcêndencia. Uma arte da transcendência seria uma arte libertadora, a qual promoveria "um sentido misterioso mais imperioso para a vida", acessível na beleza, na harmonia, na fruição poética. Cita Stravinsky: "A obra de arte deve ser exaltante". E argumenta que "desistir da beleza é uma confissão de derrota, é legitimar os inimigos".

Pondera o autor:

"Claro também que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, sem desistir da criação como esperança e vitalidade."

Retomando Tori Amos, vale ressaltar, tendo em vista quem desconhece sua vasta obra musical, que a artista já compôs (e ainda compõe) canções bem destoantes daquelas presentes em "The Beekeeper", onde o belo é o horror – a crueza da violência sexual de "Me and a gun" no confessional “Little Earthquakes” (1992) ou a grosseria de uma agressão verbal de "Fat slut" no politizado "American Doll Posse" (2007).

Deixo para o leitor, portanto, responder-se o que é arte e qual lhe seria nos dias de hoje a função da arte – se ele (ou ela) julgar que a arte pode ser assim definida.

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Por Robert Veras

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