quinta-feira, 30 de junho de 2011

Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil

“Quando o Brasil era a Terra de Santa Cruz, as mulheres tinham de se enfear e os homens precisavam dormir de lado, nunca de costas, porque “a concentração de calor na região lombar” excitava os órgãos sexuais. E nos momentos a dois – geralmente no meio do mato, e não em casa, porque a chave era artigo de luxo e não era possível fechar as portas aos olhares e ouvidos curiosos – as mulheres levantavam as saias e os homens abaixavam as calças e ceroulas. Tirar a roupa era proibido. E beijar na boca? Bem... sem pasta e escova de dentes, difícil.”

Durante muito tempo os historiadores se limitaram a privilegiar os grandes acontecimentos políticos, elegendo seus protagonistas e listando metodicamente os fatos, nomes e datas. Contudo, a partir dos anos 70, testemunhamos o surgimento de inovações teóricas e metodológicas que abriram espaço para uma grande variedade de temas que até então não eram discutidos pela História tradicional. Essa abertura leva o historiador a questões ligadas ao cotidiano da sociedade, que incluem assuntos ligados a família, à saúde, à doença, à loucura, às mulheres, ao corpo, ao sexo.

Essa busca pelo caráter humano dos acontecimentos é uma das características da historiadora Mary Del Priore. Especialista em História do Brasil, e detentora de diversos prêmios literários, percebemos em sua produção a abordagem surpreendente de temas que foram considerados tabus durante muito tempo. O livro Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil, lançado no primeiro semestre desse ano, é um grande exemplo disso.

Na obra, a escritora ressalta as mudanças em torno do sexo e das noções de intimidade. Do Brasil Colônia ao nosso Império, acompanhamos uma narrativa envolvente e objetiva que nos revela como as condições políticas, econômicas e culturais influenciaram de forma determinante alguns elementos da vida íntima dos nossos antepassados. É impressionante a riqueza de detalhes sobre hábitos e costumes, resultado de uma intensa pesquisa que durou mais de dez anos e hoje nos leva aos bastidores da história do nosso país. A obra nos permite analisar a rapidez com que “a ditadura da contenção” se transformou em “ditadura do gozo”: inicia falando do repressor período colonial, passando pelo hipócrita e adúltero século XIX (que assistiu às aventuras de um imperador libertino), além de fazer uma análise da “descoberta do corpo” e revolução sexual nos séculos XX e XXI, sempre ressaltando casos curiosos, engraçados e instigantes.

Realmente, uma leitura prazerosa...


Por Luciana Rodrigues

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