terça-feira, 28 de junho de 2011

N.D.A. Uma aventura experimentalista de Arnaldo Antunes pela poesia

Desde os anos de 1980 o poeta e compositor Arnaldo Antunes constrói uma trajetória bastante singular, desenvolvendo um trabalho artístico capaz de conciliar suas experiências com a música popular, com as artes plásticas e com a poesia.

Com vários livros publicados no Brasil, um na Espanha e um em Portugal, seu último livro de poemas n. d. a. (abreviatura de nenhuma das alternativas) e título de um dos poemas do livro (São Paulo: Iluminuras, 2010; 207 páginas; 42,00 reais), mostra uma busca marcante pela síntese, ritmo e sonoridade, tendo o movimento e a arte gráfica como elemento de significado.

Arnaldo Antunes não gosta de rótulos, mas observa-se nele, forte influência da poesia concreta, que se caracteriza por um antagonismo em relação aos recursos poéticos tradicionais. Antidiscursiva, a poesia concreta aboliu o verso e a estrofe; a disposição das letras e/ou palavras passou a explorar o espaço em branco do papel, que se torna parte integrante de sua composição. O poema ganha uma pluralidade de possibilidades interpretativas, não apenas no significado dos vocábulos, mas também em seus aspectos materiais como a sonoridade e a visualidade.

a materialidade da palavra nas experiências de linguagem é um dos pontos mais fortes na estética desenvolvida por Arnaldo Antunes e presentes neste livro: fragmentação de núcleos vocabulares; subversão, ou, em alguns casos, eliminação da sintaxe; exploração de recursos não verbais como forma de excitar outros níveis de significação do verbal. Montando, desmontando e remontando palavras, o poeta cria uma aventura lingüística, usando imagens que não são tipicamente poéticas, muitas delas, bizarras.

O livro n. d. a. traz ainda uma parte de Cartões Postais — reunião de fotos de placas e escritos urbanos que, deslocados de seu contexto original, adquirem poeticidade, gerando novos significados. A sequência das fotos acaba por sugerir uma narrativa oculta, que associa locais diferentes por elos de sentidos imprevistos.

Ao situarmos a poesia de Arnaldo Antunes no universo da cultura atual em que o mundo sofre uma veloz transformação, acreditamos que o poeta busca sempre novas formas de manter-se no mundo e de interferir nele. O livro  n. d. a. traduz o esforço escritural do poeta de diferenciação do comum e a tentativa de fixar sua individualidade estética.


Por Fátima Sena

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