No último final de semana deste junho de 2011, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura recebeu o sublime espetáculo Os meninos bailarinos de Paracuru, contemplado com Prêmio Kauss Viana de 2009. Paracuru é uma cidadezinha pequena do litoral cearense, há cerca de uma hora e meia da capital. Uma cidadezinha linda e com uma brisa de fazer inveja à Fortaleza-dela e que conta com essa que é a segunda maior escola de ballet masculino do país.
O espetáculo tem quatro peças. A primeira peça, sem título, tinha em cena dez bailarinos piruetando um ballet clássico que me pareceu desarranjado, tanto pela coreografia quanto pela performance de suas pernas que tremiam nos ares. Pensei que a coisa seguiria na mesma, mas eu sou uma criança nesse mundo que se me oferece uma caixa de surpresas e glórias.
A segunda peça, Remanso, é baseada num conto de Gabriel García Marquez, sobre a amizade de três garotos à época da Guerra Civil Espanhola. De objeto cênico só havia um "muro" cenográfico e uma rosa. Quatro sonatas de Domenico Scarlatti fez bailar o corpo daqueles três jovens. Uma peça tão lúdica e verdadeira que me levou às lágrimas. Por me lembrar que é possível sim ser anjo na terra, se irmandar; que muito mais que o belo há o sublime. E ainda bem que ouvi a apresentação do título, caso contrário pensaria se tratar de algo homoerótico, mas não: trata-se puramente de homoternurismo.
A terceira peça, Mova-se, me chacoalhou de verdade. A música, uma mistura do trip-hop de Portishead, com Hermeto Pascoal, Moby e Naná Vasconcelos. O apresentador disse se tratar do vigor da juventude, mas os movimentos dos dez bailarinos em cena, aqui homens e mulheres, numa explosão de movimentos sincopados, ao chão, ao ar, se fundindo e se desagregando e se repetindo, me fez pensar na questão da alienação do trabalho mecanicista. Mas sim: quanto vigor ostentam aqueles corpos atléticos - e até os mais cheinhos - e seus movimentos rápidos e precisos como dos animais. Somos mais que animais?
A quarta peça, Folganza, trata daquelas brincadeiras que fazíamos na rua. Digo fazíamos porque nas grandes metropóles isso é impossível, mas talvez não em uma cidadezinha como Paracuru, onde não há cinemas, shoppings e onde é possível andar nas calçadas sem o alvoroço de lojas e comprantes, onde tem mais bicicletas e pedestres que carros e a vida civil é um sussuro sinfônico. Em cena os dez bailarinos, coloridos, de maria-chiquinhas e outros elementos de figurino que remetiam à infância, ao som do Barbatuques. Seus movimentos fortes, retos, alquebrados, precisos, nos levava de volta à infância com cirandas, pique-esconde, bugalhos, estrela-nova-sela, fofocas, pula-corda, amarelinha, estrela, e tantas outras que brincava e que desconhecia.
Lavínia, a menina de quatro anos ao meu lado tentava imitar todos os movimentos dos bailarinos, levantada as pernas, dava piruetas, caia, e quando vinha me dizer "que lindo, né mamãe?" era sussurrando aos meus ouvidos e muito rápido, pra que ninguém perdesse aqueles minutos preciosos em que abstraímos nossas realidades e podíamos ser crianças e enchíamos nossos olhos de possibilidades, aventuras e sonhos. Mas não era só ela. Quando acenderam as luzes e as pessoas começaram a sair do teatro, parecia que todo mundo tinha mais consciência do seu corpo, que tinham absorvido o Mova-se e já fora do teatro mexiam-se e se esticavam e pulavam em Folganza.
E vim pra casa, em Remanso, com um gosto de rosa na boca, a querer pular o muro e achegar aos meus pares na mais pura ternurânsia.
PARA saber mais sobre o grupo, leia o texto de Jefferson Corculho Peixoto: Cabra marcado para bailar, IN: Revista Trip on line, Especial Saber [http://revistatrip.uol.com.br/169/especial/03.htm].
Por Nina Rizzi
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