O curta-metragem “O Começo”, dirigido por Camila Vieira, jornalista, mestra em Comunicação pela UFC e aluna do curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes, é uma obra que se debruça de forma silenciosa, delicada e precisa sobre o fim de um relacionamento.
O curta foi um dos 4 que resultaram do ateliê do ciclo “Imagem e Narrativa”, o primeiro da segunda turma de Realização em Audiovisual da Vila das Artes (Prefeitura Municipal de Fortaleza/ UFC).
No início, temos uma praia. O plano se divide entre os espaços enigmáticos – areia,mar e céu. Lentamente começamos a ver ao longe, no canto direito, uma figura que aos poucos identificamos como um rapaz que vem andando devagar pela areia da praia, carregando um baú.
Durante a espera, ele acaba por cochilar e acorda com carícias em seu cabelo – as mãos são de uma moça, que chega trazendo uma bolsa e uma pá.
De dentro do baú e de dentro da bolsa eles tiram os objetos que marcaram momentos importantes do seu relacionamento. Aquele encontro se trata do fim desse relacionamento, um fim ritualístico, que dá ao casal a oportunidade de realmente se despedir de tudo, para partirem para um novo começo, como o próprio título do curta-metragem indica. Atitude louvável a da diretora de presentear esse casal com esse ritual final de despedida, coisa não tão comum nos fins de relacionamento.
No caso do curta-metragem, a moça se perde um pouco em cada objeto enquanto os manuseia, resgatando pela ultima vez tudo o que cada souvenir representa, antes do casal se livrar deles por completo, enterrando o baú com todos eles na areia da praia.
Essa ação se dá de forma conjunta, porém muito diferente. O rapaz enterra o baú com grandes passadas de areia, e, pequena e suave, a mão feminina deixa que os grãos escorreguem vagarosamente da única mão que ela usa para enterrar o baú, sem pressa.
Antes do ultimo plano, que retrata a tríade enigmática areia, mar e céu, o casal se dá de presente um último e longo abraço para depois apareceram um distante do outro, sendo essa distância preenchida por um longo pedaço de “vazio” e tudo o mais que se pode haver nessa metáfora.
Através de uma enorme maturidade e destreza na sua direção, Camila consegue deixar transparecer em seus planos estendidos, precisos e meticulosamente traçados, todo o turbilhão ainda em forma de vazio daquele fim.
Utilizando-se de planos, atuações e mise-en-scène minimalistas, a atriz foge da opção comum de retratar esse tipo de situação através do melodrama, decisão que beneficiou imensamente o filme, conseguindo trazer com êxito, nos gestos e expressões naturalistas e contidos dos atores, todo o drama que cabe àquele contexto.
O filme, apesar de silencioso, fala claramente a todos os que já experimentaram o fim de um relacionamento. Apesar de silencioso e delicado, ele grita ao público de forma muda todas as dores, aflições e angústias despertadas durante um rompimento.
Por Rafaela Diógenes
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